Em resumo
- O mandato do biometano (Lei 14.993/2024) está em vigor desde 2026 com meta inicial de 1%, cumprida com molécula ou CGOB, criando demanda cativa.
- A ANP registrava 21 plantas autorizadas e 48 em análise em junho de 2026; a ABiogás projeta R$ 246 bilhões em investimentos até 2035.
- Plantas de R$ 40 a 250 milhões devem ser estruturadas como project finance com SPE, contrato de substrato, offtake e EPC com garantias — não com o balanço da agroindústria.
O biometano deixou de ser projeto de sustentabilidade para virar linha de receita. A Lei do Combustível do Futuro (Lei 14.993/2024), regulamentada pelo Decreto 12.614/2025, criou um mercado cativo: produtores e importadores de gás natural passaram a ter, a partir de 2026, uma meta de descarbonização que começa em 1% e pode chegar a 10%, cumprida com a molécula física ou com o CGOB — o certificado de garantia de origem do biometano, negociável como ativo.
O mercado respondeu antes mesmo da regulamentação estar completa. A produção brasileira cresceu 75% entre 2024 e 2025; em junho de 2026 a ANP registrava 21 plantas autorizadas, contra 6 no fim de 2023, com outras 48 em processo de autorização. A ABiogás projeta R$ 246 bilhões em investimentos na cadeia até 2035.
Onde o agro tem vantagem
O substrato é o custo que decide a viabilidade de uma planta — e o agro o tem de graça ou com custo negativo. Usinas de cana e de etanol de milho (vinhaça e DDG), frigoríficos e laticínios (efluentes), suinocultura e avicultura (dejetos) e cooperativas de grãos (resíduos e palha) já concentram o substrato em um único ponto, muitas vezes com passivo ambiental associado à sua destinação. Uma planta de biometano converte esse passivo em três receitas: o gás, o CGOB e o biofertilizante.
O porte típico dos projetos que chegam à Simaco fica entre R$ 40 e R$ 250 milhões — plantas de 5 mil a 40 mil m³/dia. É um porte grande demais para o capital de giro da agroindústria e pequeno demais para a estrutura de uma debênture incentivada. É exatamente o espaço do project finance de médio porte.
A estrutura que os financiadores aceitam
Uma planta de biometano é um ativo de infraestrutura: capex alto, receita contratada, vida útil de 20 anos. O mercado a financia como tal, e as exigências são as de um project finance:
- SPE dedicada, que isola a planta do balanço da agroindústria e permite receber capital de fundos e de parceiros estratégicos (distribuidoras de gás, traders de energia).
- Contrato de fornecimento de substrato de longo prazo com a própria agroindústria — o financiador quer ver a matéria-prima assegurada por 10 a 15 anos, com preço definido.
- Offtake do gás: contrato de compra com distribuidora, indústria âncora ou frota, idealmente take-or-pay parcial, mais a estratégia para o CGOB.
- EPC com garantias de performance do fornecedor de tecnologia (biodigestores, upgrading) — o risco de construção é o que mais preocupa o crédito.
- Autorização da ANP e licença ambiental antes do financiamento, não depois.
Com esse pacote, o projeto acessa BNDES Finem (biocombustíveis é uma das prioridades do banco), debêntures de infraestrutura quando o porte permite, fundos de infraestrutura e transição energética e, cada vez mais, Fiagros de desenvolvimento interessados no vínculo com a cadeia agrícola.
O erro mais comum
A agroindústria trata a planta como expansão da própria operação e tenta financiá-la com o balanço corporativo. O resultado é um crédito de curto prazo, caro, que consome a capacidade de endividamento que a empresa precisaria para a atividade principal. O project finance existe para o oposto: a planta se paga com a própria receita, e o risco é alocado a quem melhor o carrega — construtor, fornecedor de substrato, comprador do gás.
O trabalho de estruturação começa no modelo financeiro (produção de gás, preço, CGOB, biofertilizante, opex, tributação) e termina no data room para o comitê. Entre um e outro, há 6 a 9 meses de trabalho que a maioria dos projetos tenta pular — e paga por isso no custo do capital.
Perguntas frequentes
O que é o mandato do biometano?
É a obrigação, criada pela Lei do Combustível do Futuro, de que produtores e importadores de gás natural reduzam emissões usando biometano ou comprando CGOBs, com meta inicial de 1% em 2026 e teto de 10%.
O que é o CGOB?
Certificado de Garantia de Origem do Biometano: documento emitido pelo produtor que comprova a origem renovável do gás e pode ser negociado separadamente da molécula para cumprir o mandato.
Qual a diferença entre biogás e biometano?
O biogás é o gás bruto da biodigestão, com 50% a 65% de metano, usado localmente. O biometano é o biogás purificado acima de 96% de metano, equivalente ao gás natural, que pode ser injetado na rede ou vendido.
Que fontes financiam plantas de biometano no agro?
BNDES Finem, debêntures de infraestrutura para projetos maiores, fundos de infraestrutura e transição energética e Fiagros de desenvolvimento — todos exigindo SPE, offtake e EPC com garantias.
Sua agroindústria tem substrato e quer uma planta de biometano?
Estruturamos a SPE, o modelo financeiro, os contratos de substrato e offtake e o dossiê para BNDES, fundos e parceiros estratégicos — do diagnóstico ao comitê.
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