Numa economia com juro real de 8% a 9% ao ano — o que o Brasil oferece com Selic acima de 14% e IPCA na casa de 5% — a pergunta mais honesta que se pode fazer a um gestor de fundo de infraestrutura é: por que você não aloca tudo em LFT e vai para a praia?
A resposta revela muito sobre a lógica de alocação do capital institucional — e sobre o que as empresas que precisam captar precisam entender para posicionar seus projetos corretamente.
O problema do retorno absoluto versus retorno relativo
Fundos de pensão, seguradoras e family offices não gerenciam retorno absoluto — gerenciam retorno relativo às suas obrigações. Um fundo de pensão que precisa pagar aposentadorias atreladas ao INPC não pode simplesmente alocar em LFT e considerar o trabalho feito. Ele precisa garantir que os ativos crescem na mesma velocidade das obrigações — e as obrigações crescem por décadas.
Ativos de infraestrutura — concessões, PPPs, FIDCs de obras de longo prazo — entregam fluxos de caixa previsíveis atrelados a índices de preço (IPCA, IGPM) por 20, 30 anos. Isso resolve exatamente o problema de passivo de longo prazo que o LFT, renovável a cada dia, não resolve.
O prêmio de iliquidez que os fundos exigem
Quando um fundo de infraestrutura escolhe alocar num projeto de civil pesada ou numa SPE de O&G em vez de um título público, ele exige um prêmio. Em 2025–2026, esse prêmio típico sobre o CDI gira entre 3% e 6% ao ano, dependendo do risco operacional do projeto e da qualidade da garantia.
Para a empresa que capta, isso significa: se o CDI está em 14,25%, o custo de capital de um fundo de infraestrutura para um projeto de qualidade fica entre 17% e 20% ao ano. Não é barato. Mas para projetos com retorno operacional de 25%–35% sobre o capital investido — que é o que obras de capital intensivo com contrato firme costumam entregar — o custo é absorvível.
O que o ambiente de juro alto muda na estruturação
Em ambiente de juro real elevado, a pressão sobre a estrutura de capital das operações aumenta. Projetos que antes se viabilizavam com 60% de dívida e 40% de equity passam a exigir proporções diferentes, spreads mais altos ou garantias adicionais para manter a equação viável para o financiador.
Para empreiteiras e operadores de infraestrutura, isso implica duas adaptações:
- O modelo financeiro do projeto precisa contemplar cenários com custo de capital mais alto — e ainda mostrar retorno adequado ao investidor
- A estrutura de garantias precisa ser mais robusta para compensar o risco percebido num ambiente de política monetária restritiva
Projetos que chegam ao mercado com modelagem feita para um cenário de Selic a 10% — como era o caso até 2022 — não passam pelo crivo dos fundos em 2026. A atualização do modelo não é uma formalidade; é o que separa operações financiáveis de operações que ficam na gaveta.
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