Em resumo
- Fundos de pensão e seguradoras gerenciam retorno relativo a passivos de décadas, não retorno absoluto — por isso não alocam tudo em LFT.
- Ativos de infraestrutura indexados a IPCA ou IGP-M por 20 a 30 anos resolvem o descasamento de prazo que o título público não resolve.
- O prêmio exigido sobre o CDI fica entre 3% e 6% ao ano; projetos modelados para Selic a 10% não passam no crivo de 2026.
Numa economia com juro real próximo de 9% ao ano — o que o Brasil oferece com Selic em 14% (após o corte de agosto de 2026) e IPCA acumulado em 12 meses na casa de 4,6% — a pergunta mais honesta que se pode fazer a um gestor de fundo de infraestrutura é: por que você não aloca tudo em LFT e vai para a praia?
A resposta revela muito sobre a lógica de alocação do capital institucional — e sobre o que as empresas que precisam captar precisam entender para posicionar seus projetos corretamente.
O problema do retorno absoluto versus retorno relativo
Fundos de pensão, seguradoras e family offices não gerenciam retorno absoluto — gerenciam retorno relativo às suas obrigações. Um fundo de pensão que precisa pagar aposentadorias atreladas ao INPC não pode simplesmente alocar em LFT e considerar o trabalho feito. Ele precisa garantir que os ativos crescem na mesma velocidade das obrigações — e as obrigações crescem por décadas.
Ativos de infraestrutura — concessões, PPPs, FIDCs de obras de longo prazo — entregam fluxos de caixa previsíveis atrelados a índices de preço (IPCA, IGPM) por 20, 30 anos. Isso resolve exatamente o problema de passivo de longo prazo que o LFT, renovável a cada dia, não resolve.
O prêmio de iliquidez que os fundos exigem
Quando um fundo de infraestrutura escolhe alocar num projeto de civil pesada ou numa SPE de O&G em vez de um título público, ele exige um prêmio. Em 2025–2026, esse prêmio típico sobre o CDI gira entre 3% e 6% ao ano, dependendo do risco operacional do projeto e da qualidade da garantia.
Para a empresa que capta, isso significa: com o CDI na casa de 13,9%, o custo de capital de um fundo de infraestrutura para um projeto de qualidade fica entre 17% e 20% ao ano. Não é barato. Mas para projetos com retorno operacional de 25%–35% sobre o capital investido — que é o que obras de capital intensivo com contrato firme costumam entregar — o custo é absorvível.
O que o ambiente de juro alto muda na estruturação
Em ambiente de juro real elevado, a pressão sobre a estrutura de capital das operações aumenta. Projetos que antes se viabilizavam com 60% de dívida e 40% de equity passam a exigir proporções diferentes, spreads mais altos ou garantias adicionais para manter a equação viável para o financiador.
Para empreiteiras e operadores de infraestrutura, isso implica duas adaptações:
- O modelo financeiro do projeto precisa contemplar cenários com custo de capital mais alto — e ainda mostrar retorno adequado ao investidor
- A estrutura de garantias precisa ser mais robusta para compensar o risco percebido num ambiente de política monetária restritiva
Projetos que chegam ao mercado com modelagem feita para um cenário de Selic a 10% — como era o caso até 2022 — não passam pelo crivo dos fundos em 2026, mesmo com o ciclo de cortes em curso. A atualização do modelo não é uma formalidade; é o que separa operações financiáveis de operações que ficam na gaveta.
Perguntas frequentes
Por que um fundo de pensão investe em infraestrutura se a Selic está alta?
Porque suas obrigações crescem por décadas atreladas à inflação. Um ativo de 20 a 30 anos indexado a IPCA casa melhor com esse passivo do que um título renovado diariamente.
Qual o custo de capital de um fundo de infraestrutura em 2026?
Com CDI próximo de 14%, o prêmio de 3% a 6% ao ano leva o custo a algo entre 17% e 20% ao ano para projetos de boa qualidade.
O que muda na estruturação com juro real elevado?
A proporção dívida/equity, o spread exigido e a robustez das garantias; o modelo precisa mostrar retorno adequado mesmo em cenários de capital mais caro.
Seu modelo financeiro reflete o cenário atual de juros?
Revisamos e atualizamos modelos financeiros de projetos de infraestrutura para o padrão que o mercado institucional exige em 2026. Fale com nossa equipe.
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